Ciclo PDCA, Abordagem de Processo e Escopo do Sistema de Gestão Ambiental

Artigo #03 da série ISO 14001 Comentada
Liana Zumbach¹ e Giuliano Moretti²
Preserva Ambiental Consultoria
Núcleo de Estudos Científicos em Sustentabilidade (NECS)

Ciclo de Shewhart (PDCA)

O Ciclo de Shewhart, conhecido também como Ciclo de Deming ou Ciclo PDCA (do inglês plan – planejar, do - executar, check - verificar e act – agir), é a base metodológica utilizada pela Norma ISO 14001, bem como por outras normas de sistemas de gestão, como a ISO 9001. No caso de um Sistema de Gestão Ambiental (SGA), este ciclo, conforme exemplifica a figura 1 abaixo, objetiva internalizar uma metodologia pragmática para a ordenação dos requisitos gerenciais da Norma e estimular a melhoria contínua do sistema de gestão e do desempenho ambiental da organização.

Figura 1: Ciclo PDCA

 

Uma vez implantado como metodologia de base do SGA, o PDCA será o moto perpetuum estratégico do sistema de gestão rumo à melhoria contínua. Espera-se que a cada ciclo executado, obtenham-se os resultados planejados em seu início, sempre mais ambiciosos em relação aos ciclos percorridos anteriormente. Assim, garante-se a evolução dos indicadores de desempenho ambiental e a permanente melhoria gerencial e operacional. A figura 2 ilustra bem este processo.

 

Figura 2: Melhoria contínua do desempenho gerencial e ambiental, evidenciada pelos ciclos PDCA "rodados" sucessivamente pelo Sistema de Gestão

 

Abordagem de Processo

Além da metodologia PDCA, tanto o Sistema de Gestão da Qualidade como o Ambiental se apoiam na chamada “abordagem de processo”. Esta perspectiva facilita a compreensão dos complexos conjuntos operacionais ou atividades, desmembrando-os em operações unitárias interativas e evidenciando seus principais aspectos: as “entradas e saídas”. É o que se denomina “Mapeamento de Processos”, uma ferramenta gerencial da qualidade bastante útil para a identificação destas amplas redes analíticas de interações. Através deste mapeamento, torna-se possível focar sobre cada processo de uma organização, destacando sua influência sistêmica na rede global de processos da qual faz parte. Além disso, o mapeamento permite uma avaliação criteriosa entre o conjunto de processos e a circunvizinhança em que a organização opera.  As figuras 3A e 3B ilustram bem esta abordagem:

 

Figura 3A: Mapeamento de processos de uma organização (macroprocesso genérico), com destaque para suas múltiplas entradas e saídas (setas). As setas azuis evidenciam as interações internas do macroprocesso. As setas vermelhas evidenciam as interações com o meio ambiente.

A figura acima destaca um marcroprocesso organizacional, contemplando todos os processos interativos que se utilizam de recursos (entradas) e os transformam e produtos, subprodutos ou serviços (saídas).

Figura 3B: Processo individual com destaque para suas entradas e saídas. As setas vermelhas indicam os aspectos ambientais que podem interferir, em diversos graus, na qualidade ambiental (potenciais geradores de impactos ambientais)

A figura 3B exemplifica um processo unitário com destaque para suas entradas e saídas.

Este processo pode ser, hipoteticamente, a fabricação e posterior lavagem de caixas plásticas. Pode-se considerar como entradas o polietileno, seus aditivos e pigmentos, água tratada, óleos e graxas das máquinas operatrizes, energia elétrica e térmica. Como saídas, têm-se as caixas de plástico conformadas (produto esperado), vapores da fundição do polietileno, rebarbas plásticas provenientes da extrusão e acabamento das peças, efluentes de lavagem, caixas plásticas refugadas, dentre outras. Diante dessas informações sobre entradas e saídas, é possível levantar a interferência individual deste processo na qualidade do ambiente em que ele se insere.

A interferência citada no exemplo acima, conhecida como “impacto ambiental”, será discutida exaustivamente mais adiante, bem como suas causas ou “aspectos ambientais” (setas vermelhas).

A abordagem de processo é, desse modo, uma perspectiva que fragmenta a complexidade dos conjuntos operacionais, permitindo que os gestores identifiquem as respectivas variáveis ambientais significativas e possam gerenciá-las com maior eficácia.

O Pré-planejamento

É uma fase prévia da implantação do SGA, na qual se definem os dois primeiros requisitos que estabelecem as bases de todo o sistema: o requisito “4.1 Requisitos Gerais” e “4.2 Política Ambiental“. O pré-planejamento é desenvolvido antes de se rodar o primeiro ciclo PDCA (anterior à certificação), ou seja, na fase de estabelecimento do sistema de gestão. Do segundo ciclo em diante, quando geralmente a organização já passou pela primeira certificação, o pré-planejamento será substituído pela última fase do PDCA anterior, isto é, pela fase “Agir”. A análise crítica sobre a adequação dos requisitos 4.1 e 4.2, neste caso, ocorrerá durante a “ação” para a busca de possíveis melhorias a serem planejadas, executadas e verificadas nos ciclos posteriores.

Abaixo iniciam-se os comentários acerca dos requisitos da ISO 14001, objetivo principal desta série de artigos.

REQUISITO  NORMATIVO: Requisitos Gerais (item 4.1)

A Norma ISO 14001:2004 especifica que

A organização deve estabelecer, documentar, implementar, manter e continuamente melhorar um sistema de gestão ambiental em conformidade com os requisitos desta Norma e determinar como ela irá atender a esses requisitos.

A organização deve definir e documentar o escopo de seu sistema de gestão ambiental.

Logo neste primeiro requisito fica evidente que a metodologia PDCA está atrelada ao sistema de gestão. “Estabelecer, documentar, implementar, manter e continuamente melhorar” um SGA nada mais são do que as intermitentes fases de planejamento, execução, verificação e ação para a melhoria, conforme já discutido anteriormente.

O requisito também especifica que o sistema seja obrigatoriamente documentado, pois assim poderá ser formalizado, disseminado, acessado, operado e verificado por meio de auditorias. Grosso modo, um sistema não documentado não existe. Portanto, o gestor e sua equipe deverão garantir uma documentação que permita assegurar todos os processos relacionados ao SGA. Em artigos subsequentes serão abordados maiores detalhes sobre quais requisitos exigem documentação.

Outro importante aspecto deste requisito é a obrigatoriedade de que a organização especifique claramente “como” irá atender aos requisitos da Norma. Isto é, não basta assumir a implantação de um SGA sem que se especifique os meios pelos quais esta implantação será viabilizada. Na fase do planejamento, como se verá, o detalhamento desses meios deverá estar bastante claro, incluindo a definição de recursos necessários para se atender os requisitos.

A definição do escopo e a sua documentação também são critérios obrigatórios especificados por este requisito. O escopo é a definição dos limites organizacionais em que o SGA será estabelecido e implementado. Pode-se entendê-lo como o “alvo global” do sistema de gestão ou o macroprocesso que estará sujeito aos requisitos normativos. Esta definição delimita claramente até onde o SGA sistematiza as operações e os processos gerenciais. O estabelecimento do escopo do SGA é essencial, pois o gestor e outros responsáveis pela manutenção e melhoria do sistema, além dos auditores de órgãos certificadores, passam a conhecer exatamente os limites do macroprocesso sob influência dos requisitos do sistema, ou seja, onde tais requisitos estão ou serão implementados. Mas como determinar e onde documentar o escopo do SGA?

Para se determinar o escopo do SGA a organização deve refletir sobre as motivações que a levam a adotar o sistema. Perguntas úteis que podem ser feitas para ajudar a definir o escopo são:

  • qual a razão da sistematização da gestão ambiental em nossa organização?
  • Os impactos provenientes de qual conjunto de processos devem ser exaustivamente mitigados, para atender aos anseios de todas as partes interessadas?
  • O que os tomadores dos nossos serviços/consumidores dos nossos produtos esperam de nossa gestão ambiental?
  • De quais critérios ambientais os nossos clientes, ou o nosso mercado global, exigem cumprimento?
  • Quais são os conjuntos de processos que interferem na qualidade do meio ambiente em que nossa organização se insere?
  • Haveria razão plausível para não incluir algum processo ou conjunto de processos na sistematização da gestão ambiental?

Geralmente, as respostas a estas e outras perguntas conduzem as organizações a definirem com sucesso o escopo do SGA. Para perguntar e responder, recomenda-se o uso de brainstormings entre as pessoas-chave do sistema, como supervisores ambientais, gerentes de área, consultores, diretoria e presidência.

Uma empresa, por exemplo, pode dispor de várias unidades operacionais, cada qual com um tipo de negócio. A determinação do escopo delimita exatamente qual unidade ou tipo de macroprocesso estará sujeito aos requisitos normativos, de forma a atender a todos os anseios da organização e das partes interessadas nos seus impactos ambientais globais.

Ilustra-se, abaixo, um dos fatores decisivos para a definição de escopo do SGA numa determinada empresa:

Uma fábrica que produz sucos de uma variedade de frutas pode definir como um dos objetivos da implantação da ISO 14001, além da prevenção da poluição (motivação intrínseca dada pela Norma), participar do mercado externo de sucos de laranja (motivação mercadológica da organização). Seu cliente no país importador exige que sua produção de sucos de laranja seja certificada nos padrões da ISO 14001. A empresa, desse modo, poderá optar pela implantação e certificação ISO 14001 apenas de sua linha de produção de sucos de laranja, conquistando assim o seu potencial cliente no mercado externo. Como a organização não dispõe de recursos imediatos para certificar todos os processos, muito menos seus clientes no mercado interno ou partes interessadas não o exigem, esta seria uma boa estratégia para iniciar a cultura da sistematização do gerenciamento ambiental em uma de suas unidades. Posteriormente, ela poderia ampliar este escopo para outras linhas produtivas.

A organização dispõe de livre escolha para estabelecer qual documento poderá conter uma declaração sobre os limites em que o SGA terá influência. Porém, a experiência recomenda que o escopo seja exposto claramente junto à Política Ambiental, pois é nela em que a organização declara as suas intenções de comprometimento e conformidade global com os critérios ambientais. Indicando o escopo junto à Política Ambiental, permite-se a conjunção das principais informações que darão o norte do SGA num único documento acessado por todos os responsáveis diretos e indiretos pelo sistema, além das partes interessadas nos impactos ambientais do negócio.

O artigo seguinte, ainda tratando da fase de pré-planejamento, discutirá o requisito 4.2. Política Ambiental, exemplos e suas particularidades.

——————-

1 – Liana Zumbach: Administradora de Empresas com MBA em Sistemas de Gestão Ambiental. Diretora de Projetos Socioambientais da Preserva Ambiental Consultoria. Coordenadora do Núcleo de Estudos Científicos em Sustentabilidade (NECS). Consultora e Auditora Ambiental. Membro do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico (IPEDT).

2 – Giuliano Moretti: Engenheiro Químico com MBA em Sistemas de Gestão Ambiental e Mestrado em Gestão Ambiental. Diretor Executivo de Operações Sustentáveis da Preserva Ambiental Consultoria. Vice-Coordenador do Núcleo de Estudos Científicos em Sustentabilidade (NECS). Consultor, Auditor e Perito Judicial Ambiental Cível. Professor dos cursos de pós-graduação MBA em Gestão de Obras de Edificações no SENAI (CIETEP Curitiba) e Sustentabilidade em Arquitetura e Desenvolvimento Urbano na Universidade Positivo. Membro do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico (IPEDT).

 



Comentários fechados.

This entry was posted on 14/04/2011 and is filed under Séries Temáticas. Written by: . You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. Both comments and pings are currently closed.